A dependência do Brasil dos fertilizantes importados

Conflitos no Oriente Médio representam uma oportunidade à transição verde 

Por Camila Dias de Sá

Em 2022, no mesmo mês de março, poucas semanas após a eclosão do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, discutia-se os riscos para a disponibilidade global de fertilizantes. O conflito ameaçava embarcações no Mar Negro, zona de guerra naquele momento. Além disso, embargos impostos pelo ocidente e suas possíveis implicações na capacidade de a Rússia transacionar com parceiros externos, aumentavam ainda mais as incertezas. O Brasil diversificou emergencialmente suas importações, mas a Rússia, grande exportadora de fertilizantes, permanece como fornecedor essencial.

Cá estamos, quatros anos depois, novamente às voltas com preocupações da mesma natureza: o potencial impacto que um conflito armado poderá causar na disponibilidade de fertilizantes e, por conseguinte, no custo de produção do agro brasileiro.

Em torno de 30% do petróleo e 20% do gás natural mundialmente produzidos têm origem na região do Golfo Pérsico – Irã, Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Omã -, sendo majoritariamente transportados pelo Estreito de Ormuz para alcançar mar aberto e daí serem distribuídos para diferentes regiões do globo. Desde o início do conflito, o tráfego marítimo pelo estreito foi duramente impactado em virtude de ataques às embarcações e interferências nos equipamentos de navegação, o que leva os operadores a evitarem a travessia, afetando a distribuição e, portanto, a oferta, pressionando assim os preços. Os ataques em terra também estão provocando danos às estruturas de produção e processamento. Pela primeira vez desde a invasão da Rússia à Ucrânia, o preço do barril de petróleo superou os US$ 100. Rotas alternativas existem, mas esse deslocamento de fluxo comercial não é trivial. 

Além do potencial impacto inflacionário sobre diversas cadeias globais dependentes dessas matérias-primas — como combustíveis e fertilizantes nitrogenados —, no caso desse grupo de insumos há um agravante: uma parcela relevante do volume consumido no mundo tem sua produção no Oriente Médio. A região responde, por exemplo, por cerca de 40% das exportações de ureia, o que significa dependência direta desse corredor logístico. Em 2025, o Oriente Médio originou 16% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil. Se levarmos em conta ainda a importação de outros países em zonas sensíveis, como Rússia e Venezuela, a importação brasileira de nitrogenados soma 32%.

China (24%), Índia (15%), Brasil (10%), e EUA (10%) – nessa ordem – respondem juntos por quase 60% do consumo global de fertilizantes NPK. No entanto, o Brasil é o país que se encontra na posição mais sensível, dada a baixa produção doméstica. A velocidade de crescimento da demanda brasileira, 3,8% em média ao ano, superou a taxa mundial de 0,8%, entre 2014 e 2023, período mais recente disponibilizado pela International Fertilizer Association (IFA). Além disso, prevê-se um aumento significativo na demanda, impulsionado pela conversão de pastagens degradadas em áreas agrícolas, crescimento dos sistemas integrados e da segunda safra no país.

Somos o maior importador mundial do insumo e essa dependência, embora muito discutida há bastante tempo, só aumenta. No início dos anos 2010, a dependência dos importados era da ordem de 70%, cerca de 15 anos depois já ultrapassa 85% do consumo nacional, segundo dados recentes da ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos).

Em 2022, o governo brasileiro lançou, com atraso de mais de dez anos, o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) com visão de longo prazo para o setor. A meta principal é reduzir a necessidade de importação de adubos para cerca de 50% do consumo até 2050. O ProFert (Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes), é uma ferramenta que ajuda a viabilizar as metas do PNF, por meio de incentivos fiscais e financeiros para novos projetos e modernização de plantas existentes. O programa relaciona-se a um dos grandes eixos do PNF, que diz respeito à modernização, reativação e ampliação da capacidade industrial. Um outro eixo apoiado pelo programa diz respeito à melhoria do ambiente de negócios e atração de investimentos.

Entre os grandes desafios atuais para trazer competitividade à produção nacional estão o alto custo do gás natural, melhorias de infraestrutura para facilitar a distribuição entre regiões produtoras e consumidoras e a governança fragmentada entre múltiplos ministérios que ainda pouco se articulam em favor dos avanços necessários. Outro eixo previsto no PNF diz respeito à pesquisa, desenvolvimento e inovação, e compreende, entre outros componentes, o apoio aos fertilizantes especiais, bioinsumos e tecnologias sustentáveis.

As emissões de óxido nitroso (N₂O), gás que aquece a atmosfera 265 vezes mais que o CO₂, são oriundas da utilização de fertilizantes nitrogenados. Estima-se que o Brasil registre emissões anuais entre 35 e 40 MtCO₂, representando cerca de 6% das emissões agrícolas, segundo dados do Observatório do Clima. O uso de fertilizantes de forma mais racional pode levar a uma redefinição significativa no consumo. Juntos, o manejo mais eficiente e o processo de produção industrial de fertilizantes verdes, oferecem potencial relevante de mitigação.

A produção verde de fertilizantes se dá a partir de hidrogênio verde (H₂V), que leva à amônia verde e, na sequência, à ureia verde, oferecendo uma solução para diminuir a pegada de carbono, além de uma fonte mais segura de fornecimento, em detrimento da importação de regiões de alto risco geopolítico.

O H₂V é obtido via eletrólise da água a partir de uma fonte de energia renovável (solar, eólica, hídrica). Atualmente, a escalabilidade da indústria de fertilizantes a partir de H2V esbarra, principalmente, no alto custo dessa matéria-prima, 6 a 8 vezes mais cara que a rota fóssil. Alguns países têm subsidiado fortemente a sua produção de H2V, fator que pode ser uma ameaça para o desenvolvimento de uma indústria nacional competitiva e que requer parcerias público-privadas e políticas de indução de demanda e outros mecanismos nessa direção, tais como implementação do mercado de carbono, além de infraestrutura adequada. Nos dias de hoje, projetos só são viabilizados com contratos de longo prazo e garantia de compra que apoiem o seu financiamento.

A agenda de fertilizantes verdes, além de oferecer potencial de mitigação climática, é uma oportunidade de reduzir a dependência externa e aproveitar a matriz energética altamente renovável, posicionando o Brasil como hub regional de produção e inovação e fornecedor estratégico no cenário global.

 

Camila Dias de Sá foi pesquisadora na ESALQ/USP, FEA/USP, Insper Agro Global e, atualmente, é gerente de Programas do Instituto Equilíbrio

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